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Situado em Alcácer do Sal, onde vamos seguindo o rio para aportar ao Hortelã da Ribeira, antes chamado A Descoberta.pimentos recheados

Uma esplanada em deque sobre o passeio, uma entrada pouco cuidada, um balcão de café e sobremesas algo datado, uma casa de banho mesmo sui generis instalada em dois cilindros gigantes unidos por uma porta côncava exactamente no meio da sala de jantar, uma decoração que se apoia na antiga história de taberna mas depois rematada a ponto-cruz, na verdade nada disto augura nada de bom. Felizmente, sei ao que vim, e o que me traz aqui é a cozinha.

Ao entrar logo vou observando os comes das outras mesas, e listando mentalmente pitéus que me apetece provar. Helena Fidelis, a proprietária e chefe de cozinha esteve na inauguração do restaurante A Escola, em 1996, tendo ficado apenas um ano. Em 1998 abriu o seu Hortelã da Ribeira, que se mudou para este local em 2008.


Ao sentar é difícil resistir ao excelente pão alentejano (€1,70) macio e de miolo quase húmido, com um queijo de ovelha curado (€3,70) à moda de merendeira de Nisa, apesar de ser o tipo de queijo mais adaptado ao fim da refeição. Não foi possível resistir aos ovos com espargos do campo (€7), com os espargos longos apenas ligeiramente salteados em azeite, a estalarem crocantes no dente, e os ovos espalhando-se gulosos e húmidos pela travessa. Eu diria que a preparação poderia ligar melhor os dois produtos, que apareceram quase separados, mas como eram ambos excelentes, não fez mal.

Do pernil assado com batata doce (€7,50), prato do dia, apenas se provou uma lasca, mas estava muito saboroso, com a pele e a vizinha gelatina bem trabalhadas pelo calor, os sabores gulosos do tempero com massa de pimentão, vinho e alho, e a batata doce com ervas aromáticas a acompanharem na perfeição. 

Dos olhares ao entrar pediu-se então um feijão adubado (€9,75), que aparece aqui numa versão um pouco demasiado veggie, apenas com o ovo escalfado por cima, para mim seria melhor um pouco mais de adubo, sob a forma de enchidos de porco. O feijão é manteiga, e a cebolada com tomate são preparados ao momento, o que não beneficia o prato, já que lhe rouba integração e apuro. Melhor seria fazer de véspera e aquecer/apurar no momento, mas segundo a chefe Helena Fidelis, hoje em dia os clientes não aceitam bem essa opção. 

Fui largamente compensado logo a seguir, pela garoupa à salineiro (€26,50/2p.) A garoupa é cortada à posta, limpa de espinhas e frita na perfeição em azeite. A fritura dá-lhe um misto de doçura e salgado no exterior estaladiço, enquanto preserva a humidade interior. Depois há um molho com amêijoas, parecido com o Bulhão Pato mas ligeiramente espessado, e ainda uma fatia de laranja que liga surpreendentemente bem com os coentros. O acompanhamento de migas de batata com cogumelos está bem feito, mas não é particularmente adequado à garoupa. Seja como for, um prato excepcional, muito bem pensado e executado.papo anjo

Menos conseguidas estão as migas regionais com carne do alguidar (13,50€). Este clássico alentejano tem aqui uma carne mal escolhida, um pouco dura, e na fritura falta um pouco de brilho, dá à carne um tom pesado e oleoso, quando deveria ser vibrante e fresco. A ligação com gema de ovo para engrossar o molho não ajuda. Já as migas de pão, bem feitas, trazem algum exagero no tostado final, a roçar o queimado, embora de textura e sabor estejam muito bem.

A refeição termina então com doce da casa (€3,50), que aqui é um papo de anjo gigante feito numa forma de sericaia. Os apreciadores de papo de anjo adorariam, para mim neste doce conventual clássico há excesso de contraste entre a secura da base e a doçura da calda. O outro doce do dia era tarte de queijo fresco (€3,50), que sendo boa me pareceu mais própria para um lanche do que para terminar uma refeição já longa. Serviço de vinhos razoável, com bons copos e temperaturas adequadas, a apoiar uma lista com muitos vinhos da região e algumas boas propostas que percorrem o país.

Alcácer já foi muito sítio de passagem, e também destino, e nesta frente de rio pode encontrar-se uma tradição culinária rica, variada, com raízes. Mais uma vez, este é um destino onde apetece voltar para explorar a lista, já que se encontram produtos de excepção e pratos que fogem da banalidade muito bem desenhados pelo talento de Helena Fidelis.


Fichafarofias2


Restaurante Hortelã da Ribeira
Avenida João Soares Branco 15, 7580-166 Alcácer do Sal
Tel.: 265 612 244
facebook.com/horteladaribeira


Fecho: Segundas-Feiras no Verão
Horário: 12h00-16h00 e 19h00-23h00
Estacionamento: fácil
Chefe de cozinha: Helena Fidelis
Escanção chefe: não tem
Reservas: aconselháveis
Preço médio sem vinho: 20€
BYOB: aceite sem custos


(+) Cozinha regional com produtos de qualidade e mão talentosa.
(+) Acolhimento e serviço carinhosos e centrados no cliente.


(-) Ambiente bem apoiado na rusticidade da taberna, mas falta mais aprumo.
(-) Poucas sobremesas e algo banais.

Fonte: Revista de Vinhos