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Chegando a Alcácer do Sal e virando para o interior em direcção ao Torrão, a Natureza apresenta-se mansa, sob a forma de pinheiros, e a estrada hipnotiza-nos em suavesvale gaio curvas que fazem da viagem um prazer tão grande como a chegada. Vira-se para a barragem do Vale do Gaio, dita Trigo de Morais, construída entre 1936 e 1949. Alimentada pelo rio Xarrama, o maior afluente do Sado, ela define a paisagem sobre a qual repousa a Pousada de Vale do Gaio “S. Salvador”, liderada desde 20000 por Vasco Gallego, que lá passa os 3 meses do Verão e todos os fins de semana. Gallego é um anfitrião ímpar, que dispensa carinho aos seus clientes, o que é logo notório nos pormenores do deque exterior com vista sobre a albufeira, ou o conforto da sala comum da recepção do hotel. Já a sala de refeições usufrui do mesmo ambiente confortável, ao qual se liga o vislumbre da água e da paisagem envolvente que se estende ao redor.


Vamos para a mesa. Aparecem entradas em formato de queijo de cabra com geleia de piripíri e frasquinhos de picante caseiro com avisos explícitos de cuidado, e percebemos ao que viemos. Aqui faz-se uma cozinha onde a origem é fundamental, e depois a confecção é dedicada e rigorosa “como lá em casa.” Na prática, a oferta do restaurante reflecte o gosto de Vasco Gallego por bem receber, bem comer, e bem dar de comer. A demonstração desta afirmação chega logo a seguir, quando chega o pão, ou melhor, as rendas de pão, cortado inacreditavelmente fino e depois torrado, a contrastar com a humidade gulosa da broa de milho. Azeite fino sobre um dente de alho e flor de sal, manteiga, está feito o couvert (€2,90).

A patanisca de nada com salmão fumado e nata azeda (€9,80) apresenta-se estaladiça, com o salmão (que poderia patanisca nada salmao fumado nata azedamelhorar), as natas e fios de endro a fazer um conjunto inteligente e engraçado. Pezinhos de porco de coentrada (€8,60) são um gosto adquirido, e aqui apresentam-se na versão clássica, sempre demasiado para quem foge da gordura gelatinada, mas aqui a compor-se com as ditas rendas num contraste sedutor. Os pleurotus salteados (€9,30) com alho e louro vêm numa frigideira de barro, e têm textura carnuda e fibrosa, uma espécie de bife do mundo dos cogumelos. Muito saborosos. Havia nesse dia alguns pratos fora da lista, como as molejas de vitela salteadas com ovos mexidos e rebentos de alho, muito macias, salteadas no ponto para não secarem, com os ovos a completarem a textura húmida e suave. Havia ainda um consommé de pombo, com intensidade e pureza notáveis, completadas por carne desfiada e ovo esfarrapado, um prato reconfortante e delicado.

Atacando a lista de pratos principais, comecei pelas almôndegas de choco (€17,60). Vêm num prato de barro com arroz branco, e têm um molho de tomate fresco e intenso, que acerta em cheio no registo “almôndega.” Mas a própria almôndega resulta estranha, já que se perde a parte firme da textura do choco, sobrando apenas a parte gelatinada. Saboroso, mas com textura não completamente conseguida. O bacalhau confitado em azeite e alho com lombardo (€19,90€) é uma peça de lombo envolvido numa brandade de bacalhau, depois numa folha de couve, e finalmente confitado longamente no forno, a baixa temperatura. Concepção maravilhosa, sabores deliciosos, bem como o jogo de texturas. Apenas para o meu gosto poderia apresentar-se um pouco mais húmido, em algum ponto do processo se poderá intervir para aprimorar o prato. Já as cenouras gigantes que acompanhavam tinham um sabor fantástico, certamente vêm de alguma horta ali perto. Para terminar, as bochechas de porco preto estufadas em bôrras de vinho tinto com migas de espargos (€17,90). Carne saborosa, a desfazer-se, migas um pouco menos conseguidas, já que estavam um pouco empapadas e os espargos estavam falhos daquela textura crocante tão sedutora.bochechas porco preto estufadas

Esperei em vão pela lista das sobremesas, até que a impaciência me levou a perguntar. Afinal, a sobremesa é uma carta-branca (€6,30) para atacar uma mesinha lá do fundo. Mas também há fruta tropical (€5,70) e fruta da época (€4,20). Na dita mesinha, um ror de bondades. Provei estoicamente micro-doses da tarte de requeijão (húmida, com apontamentos salgadinhos, deliciosa), do bolo de chocolate (escorrendo no meio, muito bom), do pudim de ovos (clássico, muito bem feito), da encharcada de Mourão e da sericaia com ameixas de Elvas (ambas de referência e reverência). Ignorei os suspiros, mas fui prontamente corrigido e em boa altura: “Dê-lhe um murro e prove.” Assim fiz para obter uma consistência quase de macaron de St. Émilion, apoiada numa ausência de doçura que roça o escândalo. Brilhante.

O serviço de vinhos é competente e apurado, sendo de destacar o vinho da casa produzido ali perto na Herdade de Portocarro e engarrafado em garrafões de 5 litros sem palhinha. A lista é curta mas bem apetrechada, e se tem vinhos com preços excessivos, também tem várias opções a preços moderados. Depois do almoço apetece regressar aos sofás da sala inicial, olhar as águas da barragem, pedir uma água das pedras, e ponderar ficar, o que teria a vantagem adicional de permitir a continuação da exploração da ementa.


Ficha


Hotel Vale do Gaio
Barragem Trigo de Morais, 7595-034 Torrão, Alcácer do Sal
Tel.: 265 669 610/265 669 797
www.valedogaio.com


Fecho: nunca
Horário: 13 às 15 e 20 às 22:15
Estacionamento: próprio
Chefe de cozinha: Zézinha Botas
Escanção chefe: não tem
Reservas: obrigatórias
Preço médio sem vinho: 25€
BYOB: €7,50 por garrafa


(+) Inserção na Natureza, magnífico ambiente e vista, conforto, um sítio deslumbrante.
(+) Cozinha tradicional apurada com uma chispa de refinamento urbano.


(-) Alguns pratos tornam-se pesados.
(-) Ir só comer ao restaurante sabe a pouco, apetece ficar no hotel.

Fonte: Revista de Vinhos